
Por Frei Flávio Venâncio, OFMConv.
Francisco era um homem intuitivo; aquilo que ele experimentava em suas orações e missões tentava exprimir isso aos frades e leigos, seja por meio de sua pregação ou pelas inúmeras cartas e orações. Precisamos recordar que ele não era um teólogo no sentido comumente atribuído a esse termo. São Francisco aprendeu e ensinou tudo o que a Igreja da época vivia, o que percebemos quando falava sobre Maria, tanto que Tomás de Celano escreveu que ele “envolvia com um amor indizível a Mãe de Jesus, porque gerou nosso irmão, o Senhor da majestade. Cantava-lhe louvores especiais, derramava orações, oferecia afetos [...]”.
Em uma de suas orações, dentro do Ofício da Paixão, ele nos deixa a seguinte antífona: “Santa Virgem Maria, não há entre as mulheres no mundo, nascida semelhante a ti, filha e serva do Altíssimo e Sumo Rei Pai celestial, mãe do santíssimo Nosso Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: roga por nós, com São Miguel Arcanjo, e com todas as virtudes celestes e com todos os santos, junto ao teu santíssimo dileto Filho, Senhor e Mestre”.
Nessa antífona, Francisco parece compartilhar da mesma experiência de Isabel na narração do evangelista Lucas ao afirmar que não há entre as mulheres do mundo alguém nascida semelhante a ti. Assim, ele destaca o privilégio da graça de Maria por ser chamada a participar do plano da Encarnação de Jesus. Nesse sentido, para Francisco, Maria tem o privilégio de ser escolhida para ser mãe de Jesus, mas percebe-se que ela não é uma deusa, já que sua situação no plano histórico-salvífico é particular.
Dentro do carisma franciscano, a partir dessa antífona, Maria é chamada de filha e serva. Ela se tornou filha ao dizer seu sim, mas, ao mesmo tempo, conhece sua condição e declara: Eis aqui a SERVA do Senhor. E o Santo de Assis destaca essas duas dimensões: Maria é filha quando assume o seu papel de serva de toda criatura humana. Como recebeu essa graça tão grande de Deus, ela se põe completamente em suas mãos.
É digno de menção que, quando Francisco diz que Maria é esposa do Espírito Santo, ele indica, primeiramente, a relação de Maria com a Trindade. Em sua relação com Deus Pai, ela é filha e serva; em relação a Jesus, é mãe; e, em relação ao Espírito Santo, é esposa. A veneração a Maria se dá em relação à Trindade, pois ela está inscrita na história da salvação. A Santíssima Trindade se inclina até Maria e a eleva em sua dignidade.
Essa antífona que Francisco dirige a Maria é riquíssima, do ponto de vista teológico, e notamos a grande intimidade de Francisco com a Santíssima Trindade e na sua devoção a Maria, pois ela também se fez pobre como seu Filho e assumiu a condição de serva. Mais do que escrever tratados sobre as verdades ortodoxas, o Poverello de Assis exprime, em sua devoção, a vida e a participação de Maria no mistério da salvação.
A devoção e a piedade de Francisco se intensificam e se avivam na contemplação dos episódios de uma vida inteiramente dedicada à realização do plano de salvação de Deus.
Que, impulsionados pelo amor de São Francisco de Assis, possamos também aprender a contemplar a vida de Maria junto à Santíssima Trindade.