
Por Frei Gustavo Jonas, OFMConv.
A pedagogia do silêncio na Quaresma e o amadurecimento do chamado.
Na Quaresma, preparamo-nos para celebrar o maior acontecimento da história: a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao entrarmos neste tempo, surgem perguntas importantes: como vivê-lo de forma autêntica? Quanto ele dura? E, sobretudo, o que a Quaresma tem a ver com a minha vida vocacional?
A palavra “Quaresma” significa “quadragésima”, termo de origem latina que remete ao número quarenta. Este número, na Sagrada Escritura, carrega um sentido profundo: recorda os quarenta anos em que o povo de Deus peregrinou pelo deserto rumo à Terra Prometida (cf. Dt 8,2), os quarenta dias em que Jesus, conduzido pelo Espírito, esteve no deserto e sofreu as tentações antes de iniciar sua missão pública (cf. Mt 4,1) e indica um tempo de provação, preparação e plenitude.
Gosto de comparar a Quaresma à preparação de uma casa para receber uma visita importante. Quando sabemos que alguém querido virá, organizamos os ambientes, retiramos o pó, abrimos as janelas e deixamos tudo pronto para acolher. A Quaresma é como uma limpeza da nossa casa interior, em que somos convidados o nosso coração por meio da oração, do jejum e da penitência, dispondo-nos a celebrar com verdade a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.
O deserto, porém, não é apenas um lugar geográfico, e sim um lugar teológico também. É ali que Deus fala ao coração humano: “Eu a conduzirei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,16). O deserto é espaço de silêncio, de provação e de escuta. Nele caem as ilusões, revelam-se as fragilidades e amadurece a confiança.Jesus não foi ao deserto para ser purificado, mas para confirmar e manifestar, na obediência ao Pai, a missão que lhe estava confiada. Antes de iniciar sua vida pública, assumiu o silêncio e enfrentou as tentações, mostrando-nos que toda missão autêntica nasce de uma profunda comunhão com Deus.
Também a vida vocacional passa pelo deserto. Quem se sente chamado ao matrimônio, à vida religiosa, ao sacerdócio ou à missão experimenta dúvidas, medos, renúncias e questionamentos. Em certos momentos, pode parecer que Deus silencia e que as respostas tardam. No entanto, é justamente nesse silêncio que a fé amadurece.
O deserto vocacional purifica as intenções e fortalece a decisão. Ele nos desprende de seguranças superficiais e nos ensina que Deus é o nosso único necessário. Quando permanecemos firmes nesse tempo, o chamado se torna mais claro e a entrega, mais livre.
Que esta Quaresma seja, para cada um de nós, um tempo fecundo de deserto. Rezemos para que aqueles que discernem sua vocação encontrem, no silêncio e na oração, a coragem de confiar e a alegria de responder generosamente ao chamado de Deus.
A pedagogia do silêncio na Quaresma e o amadurecimento do chamado.