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800 anos do Testamento de São Francisco de Assis

Por Frei Gustavo Jonas, OFMConv. 


Em 2026, celebraremos os 800 anos da redação do Testamento de São Francisco de Assis, bem como o centenário de sua morte. Normalmente, um documento escrito pelo fundador de uma ordem religiosa é muito importante para os seus seguidores,ainda mais quando se trata de um "Testamento", sendo este o último documento escrito que expressa as intenções mais importantes do fundador. É como uma herança viva deixada por São Francisco, sua última vontade, o "tesouro de seu coração" que seus seguidores podem, devem assumir, aprofundar e frutificar.


Assim, acontece com São Francisco de Assis: percebendo que sua hora de partir para o Pai se aproximava, ele decide começar a ditar o seu testamento a um frade companheiro. São dois, propriamente, os Testamentos de São Francisco: o Testamento feito em Sena e o denominado simplesmente de Testamento. 


O primeiro, conhecido como “Testamento feito em Sena” ou “Pequeno Testamento”, foi escrito entre abril e maio de 1226. A Compilação de Assis afirma que os frades da província de Sena, percebendo que Francisco iria morrer, exclamaram pedindo a bênção do fundador e um memorial da sua vontade, para que os frades o tenham sempre presente (cf. CA 59). Assim, às pressas, Francisco, em resposta ao pedido, ditou um resumo de toda a sua vida e da Ordem, pedindo que todos os frades se amem, sejam fiéis à Igreja de Cristo e observem com fidelidade à Senhora Santa Pobreza.


Já o outro Testamento, mais conhecido e mais importante, surge semanas antes de sua morte, em setembro de 1226. Neste Testamento, ele escreve aos irmãos sobre sua vocação e missão: “O Senhor deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência assim: como estivesse em pecado, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor, me conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo, e, em seguida detive-me por um pouco e sai do mundo” (T 1).


Vemos que São Francisco escreve a partir da sua experiência; ele recorda como Deus o conduziu, passo a passo, desde o encontro com os leprosos e os pobres até uma vida de total entrega a Deus. Ao revisitar a história, percebe que tudo foi graça e dom de Deus. Tudo começa pela vontade de Deus; por isso, assim declara uma de suas primeiras biografias, Frei Tomás de Celano: “A mão do Senhor Altíssimo, a sua mão direita, pousou finalmente sobre ele e transformou-o” (1C 2).


Nada nasceu de São Francisco, mas da escuta amorosa e atenta da Palavra de Deus, ao ponto de transformar até aquilo que lhe era mais penoso, a convivência com os leprosos, em algo evangélico. Por isso, o Pobre de Assis declara: “aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo.


O que Santo chama de “amargura” representa tudo aquilo que nos causa rejeição, medo ou desconforto: situações difíceis, pessoas que evitamos, renúncias necessárias, cruzes do dia a dia. A “doçura” não significa que o sofrimento desapareceu; ela indica que, ao ser vivido com fé, ele se transforma interiormente, ao ser vivido com fé, ele se transforma interiormente. Eis a grande descoberta para São Francisco: quando você se deixa conduzir por Deus, aquilo que parecia destrutivo torna-se fonte de alegria.


Que a celebração dos 800 anos do Testamento de São Francisco reacenda em nossos corações o desejo de perceber que a graça de Deus nos rodeia e que, com a esperança que brota da fé, possamos enfrentar qualquer desafio que apareça.


Fonte bibliográfica:

Fontes Franciscanas (2ª edição). Editora O Mensageiro de Santo Antônio, Santo André, 2020. 


 
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