Santa Clara de Assis

Escritos de Santa Clara

scritos de Santa Clara

Testamento de Santa Clara
Em nome do Senhor, Amém.

Entre outros benefícios que temos recebido e estamos recebendo diariamente de nosso doador, Pai das misericórdias, e pelos quais devemos dar mais ações de graças ao mesmo glorioso Pai, está nossa vocação que, quanto mais perfeita e maior, mais a Ele a devemos. Donde o dito do Apóstolo: Conhece tua vocação! O Filho de Deus fez-se para nós caminho, que nosso beatíssimo pai Francisco, seu verdadeiro amante e imitador, nos mostrou e ensinou pela palavra e pelo exemplo.

Por isso, devemos considerar, irmãs diletas, os imensos benefícios de Deus a nós concedidos. Mas, entre outros que Deus se dignou operar em nós, por seu servo dileto, nosso pai, Bem-aventurado Francisco, não só depois de nossa conversão, mas, também, quando ainda estávamos na mísera vaidade do século: pois, quando o Santo, não tendo ainda Irmãos nem companheiros, quase logo após sua conversão, ao restaurar a igreja de São Damião, em que, visitado plenamente pela consolação divina, foi impelido a deixar de todo o século; precedido da maior alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que depois o Senhor realizou de modo pleno.

Nesse tempo, pois, subindo ao muro da mencionada igreja, em alta voz e em francês, falou a alguns pobres que moravam ao lado: Vinde e ajudai-me na obra do mosteiro de São Damião, porque nele ainda haverão de morar senhoras cuja vida famosa e conversação santa vão glorificar nosso Pai do céu em toda sua santa Igreja. Nisso, pois, podemos considerar a copiosa benignidade de Deus em nós: que, por causa da abundante misericórdia e caridade sua, dignou-se falar estas coisas acerca de nossa vocação e eleição por meio de seu santo. E não só de nós, nosso beatíssimo pai Francisco profetizou essas coisas, mas, também, das demais que haveriam de vir na vocação santa na qual Deus nos chamou. Com quanta solicitude, pois, com quanto empenho da mente e do corpo devemos guardar os mandamentos de Deus e de nosso pai, a fim de que, com a cooperação do Senhor, restituamos multiplicado o talento! Pois, o próprio Senhor não somente nos constituiu forma para outros, em exemplo e espelho, mas, também, para as nossas irmãs que o Senhor convocou para nossa vocação, a fim de que também elas sejam espelho e exemplo para as pessoas que vivem no mundo. Portanto, uma vez que o Senhor nos chamou para coisas tão grandes, que em nós possam se espelhar aquelas que são espelho e exemplo para os outros, muito temos de bendizer e louvar a Deus e confortar-nos mais amplamente ainda no Senhor para fazer o bem. Por isso, se vivermos segundo a forma predita, deixaremos para os outros um nobre exemplo e conquistaremos o prêmio da bem-aventurança eterna com um brevíssimo labor.

Depois que o Altíssimo Pai celeste, por sua misericórdia e graça, dignou-se iluminar meu coração para que fizesse penitência seguindo o exemplo e a doutrina do nosso beatíssimo pai Francisco, pouco depois de sua conversão, junto com poucas irmãs que o Senhor me dera, logo após minha conversão, eu lhe prometi obediência, livremente, como o Senhor me concedera pela luz de sua graça, através da vida admirável e doutrina dele. O Bem-aventurado Francisco, porém, percebendo que éramos frágeis e fracas de corpo e, todavia, não recusávamos nenhuma fatalidade, pobreza, labor, tribulação ou vileza e desprezo do século; que, pelo contrário, como verificara frequentemente em nós, reputávamos tudo como grandes delícias, a exemplo dos santos e de seus frades, alegrou-se muito no Senhor. E, movido de piedade para conosco, obrigou-se a nós, por si e por sua Ordem, a ter sempre por nós tanto cuidado diligente e especial solicitude como para com seus frades. E, assim, por vontade de Deus e do nosso beatíssimo pai Francisco, fomos morar junto à igreja de São Damião, onde o Senhor, em pouco tempo, por sua misericórdia e graça, nos multiplicou, a fim de que se cumprisse o que o Senhor predissera por seu Santo; pois antes tínhamos morado em outro lugar, embora por pouco tempo.

Depois escreveu para nós uma forma de Vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa Pobreza. Também, em sua vida, não se contentou apenas em nos exortar, com muitas palavras e exemplos, ao amor da santíssima Pobreza e de sua observância, mas, transmitiu-nos, também, muitos escritos para que, após sua morte, não nos desviássemos dela de forma alguma, como o Filho de Deus que, enquanto viveu no mundo, nunca quis desviar-se da mesma santa Pobreza. E nosso beatíssimo pai Francisco, imitando seus vestígios, pelo seu exemplo e doutrina, enquanto viveu, não se desviou, de forma alguma, de sua santa Pobreza, que escolheu para si e para seus irmãos.

Por isso, eu, Clara, serva de Cristo e das irmãs pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e plantinha do santo pai, considerando com as outras minhas irmãs nossa tão altíssima profissão e mandamento de tão grande pai; considerando, ainda, a fragilidade das outras, que temíamos em nós, após a morte de nosso santo pai Francisco, que era nossa coluna e nossa única consolação depois de Deus, e sustentáculo, vezes e vezes nos obrigamos, livremente, à nossa santíssima senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as irmãs, que estão e que vierem, não
possam de modo algum desviar-se dela.

E como sempre fui empenhada e solícita em observar e fazer observar, pelas outras, a santa Pobreza que prometemos ao Senhor e ao nosso Bem-aventurado Francisco, assim, aquelas que me sucederem no ofício, sejam obrigadas, com a ajuda de Deus, a observar e fazer observar a santa Pobreza até o fim. Mais ainda: para maior precaução, no tempo em que iniciamos, solicitei ao senhor Papa Inocêncio e aos outros seus sucessores, que fizessem corroborar com seus Privilégios nossa profissão da santíssima Pobreza que prometemos ao Senhor e ao nosso Bem-aventurado pai, para que em tempo algum nos desviássemos dela. Por isso, de joelhos dobrados e, ambos, o homem interior e o exterior, inclinados, recomendo todas as minhas irmãs, que estão e vierem, à santa mãe Igreja Romana, ao Sumo Pontífice e, principalmente, ao senhor
Cardeal que for designado para a Ordem dos Frades Menores e para nós, para que, por amor daquele Deus que pobre no presépio foi posto, pobre no século viveu e nu no patíbulo permaneceu, faça seu pequeno rebanho, – que o Senhor Pai gerou em sua santa Igreja, pela palavra e pelo exemplo de nosso beatíssimo pai Francisco, para seguir a pobreza e a humildade de seu dileto Filho e de sua gloriosa Virgem Mãe – observar sempre a santa Pobreza que prometemos a Deus e ao nosso beatíssimo pai Francisco e nela digne-se favorecê-lo e conservá-lo.

E como o Senhor nos deu nosso beatíssimo pai como fundador, plantador e nosso auxílio no serviço de Cristo e naquelas coisas que prometemos a Deus e ao nosso Bem-aventurado pai, o qual, enquanto viveu, foi sempre solícito, por palavra e obra, em cultivar-nos e fomentar-nos, sua plantinha; assim, recomendo e deixo minhas irmãs, presentes e futuras, ao sucessor de nosso beatíssimo pai Francisco e a toda sua Ordem, para que nos auxiliem em progredir sempre melhor no serviço de Deus e, principalmente, em melhor observar a santíssima Pobreza.

Porém, se em algum tempo acontecer que as ditas irmãs deixarem o mencionado lugar e se transferirem para outro, depois de minha morte, sejam obrigadas, no entanto, para onde forem, a observar radicalmente a referida forma da pobreza que prometemos a Deus e ao nosso beatíssimo pai Francisco. Todavia, sejam solícitas e previdentes, tanto aquela que estiver no ofício como as demais Irmãs, para que não adquiram nem recebam, junto a esse lugar, senão aquela quantia de terra exigida pela necessidade extrema de uma horta para se cultivar as verduras. Se, porém, em algum lugar, por causa do decoro e afastamento do mosteiro, for necessário ter mais terreno para a horta, fora da cerca, não permitam que se compre ou se receba mais do que for exigido pela necessidade extrema. E aquele terreno não seja trabalhado de jeito nenhum, nem semeado, mas, permaneça sempre baldio e inculto.

Admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo, todas as minhas irmãs, que estão e que vierem, para que sempre se empenhem em imitar o caminho da santa simplicidade, humildade, pobreza, e também da honestidade da santa conversação, assim como no início de nossa conversão fomos ensinadas por Cristo e pelo nosso beatíssimo pai Francisco. É dessas coisas – não por nossos méritos – mas, só pela misericórdia e graça do doador, que o próprio Pai das misericórdias, espalhou o odor da boa fama, tanto para os de perto como para os de longe. E, amando-vos umas às outras, a partir da caridade de Cristo, o amor que tendes dentro demonstrai-o por meio de obras, para que assim, provocadas por esse exemplo, as irmãs cresçam sempre no amor de Deus e em mútua caridade.

Rogo, também, àquela que estiver no ofício das irmãs, para que se empenhe em estar à frente das outras, mais pelas virtudes e santos costumes do que pelo cargo, até o ponto que suas irmãs, provocadas pelo seu exemplo, obedeçam não tanto pelo ofício, mas antes pelo amor. Seja, também, previdente e discreta acerca de suas Irmãs como boa mãe para com suas filhas; e, principalmente, acerca das esmolas que o Senhor lhes concede, empenhe-se em provê-las segundo a necessidade de cada uma. Seja, ainda, tão benigna e acessível que possam manifestar com segurança suas necessidades e a ela recorrer com confiança em qualquer hora assim como lhes parecer convir, tanto por si mesmas como por suas irmãs. As irmãs súditas, porém, recordem-se de que abnegaram as próprias vontades por causa de Deus. Por isso, quero que obedeçam à sua mãe assim como prometeram ao Senhor por sua livre vontade, de modo que sua mãe, vendo a caridade, humildade e unidade que têm entre si, conduza com mais leveza todo o peso do ofício que tem de carregar; e, o que é molesto e amargo, por
causa da santa conversação delas, converta-se em doçura. E, porque estreitas são a via e a vereda, e apertada a porta pela qual se vai e se entra para a vida, são poucos os que por ela andam e entram. E, se há alguns que, por certo tempo, por ela andam, pouquíssimos são os que nela perseveram. Felizes, então, aqueles aos quais foi dado andar por ela e perseverar até o fim.

Cuidemos, portanto, para que, se entramos pela via do Senhor, de maneira alguma dela nos desviemos, por algum tempo, por culpa nossa e ignorância, para assim não causar injúria a tão grande Senhor e à sua Virgem Mãe e a nosso Bem-aventurado pai Francisco, à Igreja triunfante e também à militante. Pois, está escrito: Malditos os que se desviam dos teus mandamentos.

Por essa causa, dobro meus joelhos ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, pela intercessão dos méritos da gloriosa Virgem Santa Maria, sua Mãe, de nosso beatíssimo pai Francisco e de todos os santos, para que o próprio Senhor, que deu o bom princípio, dê o crescimento e dê, também, a perseverança final. Amém.

Para que se deva observar melhor este escrito, deixo-o a vós, minhas caríssimas e diletas irmãs, presentes e futuras, em sinal da bênção do Senhor e do nosso beatíssimo pai Francisco, e da minha bênção de mãe e de serva vossa.


1ª Carta a Inês de Praga

Para a venerável e santíssima Virgem, senhora Inês, filha do excelentíssimo e ilustríssimo rei da Boêmia, de Clara, fâmula indigna de Jesus Cristo e serva inútil das senhoras reclusas do mosteiro de São Damião, vossa sempre súdita e serva, recomendação integral de particular reverência para obter a glória da felicidade eterna. Sabedora da boa fama de vossa santa conversação e vida, divulgada egregiamente não apenas para mim, mas em quase todo orbe, muito me alegro no Senhor e exulto; e não somente eu, singularmente, chego a exultar, mas todos os que trabalham e desejam trabalhar no serviço de Jesus Cristo. Por isso, é que mesmo podendo gozar, mais do que outros, das pompas, das honrarias e reverências do mundo, desposando, legitimamente, o excelente e ínclito César, como conviria à Vossa e à excelência dele, desprezastes tudo e, com todo o ânimo e afeto do coração, escolhestes, antes, a santíssima Pobreza e a penúria do corpo, aceitando um esposo de estirpe mais nobre, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta.

Ao amá-lo, sois casta;
Ao tocá-lo, sereis mais pura;
Ao recebê-lo, sois virgem.
Seu poder é mais forte,
Sua generosidade, mais alta,
Seu rosto, mais belo,
Seu amor, mais suave,
Sua graça toda, mais elegante.

Já vos estreitou nos braços,
Já vos ornou o regaço com pedras preciosas,
Já vos deu brincos de inestimáveis pérolas.

Ele vos cercou toda com o brilho de gemas florescentes,
Ele vos cingiu com uma coroa de ouro,
Marcada com o sinal da santidade.

Portanto, caríssima Irmã, mas senhora muito veneranda, porque sois esposa, mãe e Irmã de meu Senhor Jesus Cristo, assinalada, com todo o esplendor, pelo estandarte de uma virgindade inviolável e da santíssima Pobreza, confortai-vos no santo serviço, iniciado pelo ardente desejo do Pobre Crucificado, que, por todos nós, suportou a Paixão da cruz, arrancando-nos do poder do príncipe das trevas, ao qual estávamos presos pela transgressão dos primeiros pais, reconciliando-nos com Deus Pai.

Ó feliz pobreza,
Que conferes riquezas eternas
Àqueles que a amam e abraçam.

Ó santa Pobreza,
Àqueles que a têm e desejam,
Deus promete o Reino dos céus
E se apresenta, sem dúvida, a glória eterna
E a vida bem-aventurada.

Ó pia pobreza,
Que o Senhor Jesus Cristo
Se dignou abraçar, mais do que tudo,
Ele que regia e rege o céu e a Terra,
Ele, por cuja palavra foram criados.

Pois as raposas, disse ele, têm suas tocas
E as aves do céu seus ninhos,
Mas o Filho do Homem, isto é, Cristo,
Não tem onde reclinar a cabeça,
Mas, tendo inclinado a cabeça, entregou o espírito.

Se, pois, tal e tão grande Senhor, descendo ao útero da Virgem, quis aparecer no mundo, desprezado, indigente e pobre, a fim de que os homens, os mais pobres e indigentes, sofrendo demasiada indigência de alimento celestial, se tornassem n’Ele ricos detentores de Reinos celestes, exultai e alegrai-vos muito, cheia de grande júbilo e alegria espiritual, porque, tendo-vos agradado mais desprezar o mundo do que ter suas honras, seguir a pobreza do que as riquezas temporais, guardar tesouros no céu do que na terra, onde nem a ferrugem consome nem a traça destrói, nem ladrões arrombam e roubam, a vossa recompensa no céu será abundante, pois merecestes ser chamada, com quase toda dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da Virgem Gloriosa.

Creio, pois, firmemente, que estais a par de que o Senhor promete o Reino dos céus e o dá só aos pobres, pois o amor das coisas temporais leva à perda dos frutos da caridade; não é possível servir a Deus e à mamona, pois ou há de amar um e odiar o outro, ou há de servir a um e desprezar o outro; é que o vestido não pode pelejar contra o nu, pois logo será jogado por terra aquele que tem onde segurar-se, como, também, não pode permanecer glorioso no mundo e lá reinar com Cristo; pois, antes, um camelo poderá passar pelo buraco de uma agulha do que um rico subir ao Reino dos céus. E, assim, despistes as vestes, a saber, as riquezas temporais para não sucumbirdes completamente à relutância e, pela via árdua e pela porta estreita, poderdes entrar no Reino do céu.

Grande, com efeito, e louvável é a troca:
Abandonar as coisas temporais pelas eternas,
Merecer os bens celestes em troca dos terrenos,
Receber cem por um,
E possuir uma vida feliz para sempre.

Por isso é que, tanto quanto posso, levei vossa excelência e santidade a suplicar com preces humildes, nas entranhas de Cristo, para que vos deixeis fortalecer em santo serviço. Crescendo do bom para o melhor, de virtude em virtude, a fim de que Aquele, a quem servistes com todo ardor da mente, digne-se conceder-vos o prêmio almejado. Peço-vos, também, no Senhor, tanto quanto posso, que queirais recomendar em vossas santíssimas orações a mim, como vossa serva, embora inútil, bem como as outras irmãs a nós devotadas que moram comigo no mosteiro, a fim de que, com o auxílio destas orações, possamos merecer a misericórdia de Jesus Cristo e, assim juntas convosco merecermos fruir da visão sempiterna. Saúde no Senhor e orai por mim.


2ª Carta a Inês de Praga

Para a filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos dominadores, à esposa digníssima de Jesus Cristo e, assim, rainha acima de toda nobreza, senhora Inês, de Clara, serva inútil e indigna das Senhoras Pobres, saúde e uma vida sempre de extrema pobreza. Rendo graças ao Doador da graça, de quem se crê provir toda dádiva excelente e todo dom perfeito, que te ornou com tantos títulos de virtudes e te fez brilhar em sinais de tanta perfeição, a ponto de, transformada em imitadora cuidadosa do Pai Perfeito, merecerás tornar-te perfeita, a fim de que seus olhos não encontrem em ti nada de imperfeito. Tal é a perfeição, com que o próprio Rei associará consigo no leito etéreo, em que está sentado glorioso num trono de estrelas, porque, vilipendiando os faustos do reino terrestre e considerando pouco dignas as ofertas do conúbio imperial, transformada em êmulo da santíssima Pobreza, aderiste, com espírito de grande humildade e ardentíssima caridade, às pegadas d’Aquele a cujo conúbio mereceste unir-te.

Como, porém, sei que estás ornada de virtudes, poupando-te a prolixidade, não quero trazer-te peso de palavras supérfluas, embora nada te pareça supérfluo do que te possa trazer alguma consolação. Todavia, porque uma só coisa é necessária, por amor d’Aquele a quem te ofereceste; como hóstia santa e agradável, suplico e imploro que, qual outra Raquel, vendo sempre teu princípio, te recordes do propósito: de manter o que tens, de fazer o que fazes e não desistir, mas, com veloz curso, de andamento leve, com pés desimpedidos, a fim de que teus passos não peguem poeira, caminhares segura, com alegria e agilidade, pelos caminhos da felicidade, sem acreditar nem ceder a ninguém que queira desviar-te deste propósito, que te ponha escândalo no caminho, para não deixares de oferecer ao Altíssimo teus votos naquela perfeição, a que te chamou o Espírito do Senhor.

Para percorreres o caminho dos mandamentos do Senhor, com maior segurança, imita o conselho de nosso venerável pai, nosso Irmão Elias, Ministro Geral; que o ponhas à frente dos conselhos de outros e o consideres mais caro do que qualquer dom. E se alguém te disser coisa diferente, se te sugerir outra coisa, que impeça tua perfeição, que pareça contrária à vocação divina, embora devas respeitar, todavia não lhe sigas o conselho, mas abraça, virgem pobre, o Cristo pobre. Eis que Ele se faz desprezível por ti. Segue-o, tornando-te desprezível neste mundo por Ele. Rainha, acima de toda nobreza, vê, considera e contempla, desejando imitar teu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, que se fez o mais vil dos varões para tua salvação, desprezado, abatido e bem flagelado em todo o corpo, morrendo entre as angústias da cruz.

Se com Ele sofreres,
com Ele reinarás;
se com Ele chorares,
com Ele exultarás;
se com Ele morreres na cruz da tribulação,
com Ele habitarás na glória dos santos,
na mansão celeste
e teu nome glorioso será gravado no livro da vida.
E para sempre glorificado entre os homens.

Por isso, terás parte para sempre na glória do Reino celeste, em troca dos reinos terrenos e transitórios, e os bens eternos em troca dos bens perecíveis e viverás pelos séculos dos séculos. Saúde, caríssima Irmã e senhora, pelo Senhor, teu esposo. E procura, em tuas devotas orações, recomendar-me ao Senhor, a mim e a minhas irmãs, que nos alegramos dos bens do Senhor, que, por sua graça, opera em ti. Recomenda-nos muito também a tuas irmãs.


3ª Carta a Inês de Praga

Para a Senhora reverendíssima em Cristo, Irmã Inês, a ser amada acima de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia, mas já irmã e esposa do Rei Supremo dos Céus, de Clara, serva humilde e indigna de Cristo e servidora das Senhoras Pobres, as alegrias da salvação no Autor da Salvação e tudo que de melhor se possa desejar.

De tua salvação, de teu feliz estado e dos progressos, com os quais sei estares fortalecida na corrida encantada para alcançar o prêmio celeste, eu me encho de tanta alegria e respiro, com tão grande regozijo no Senhor, quanto tenho conhecimento e julgo que tu supres admiravelmente as faltas em mim, ou nas outras irmãs, imitando as pegadas humildes e pobres de Jesus Cristo.

De verdade, eu posso me regozijar e ninguém poderá afastar-me de tão grande alegria. Pois, já tendo o que desejei debaixo do céu, vejo com terror e sem compreender, que, ajudada por uma prerrogativa admirável da sabedoria, vinda da boca do próprio Deus, tu superas as astúcias do astuto inimigo, a soberba e a vaidade de perdição da natureza humana, que enfatua o coração dos homens. E abraças, com humildade, com a virtude da fé e os braços da pobreza, o tesouro incomparável escondido no solo do mundo e dos corações humanos, com que se compra Aquele pelo qual tudo foi feito do nada. E para usar, com propriedade, das palavras do Apóstolo, considero-te auxiliar do próprio Deus e reanimadora dos membros caídos de seu corpo inefável.

Quem é, pois, que me impedirá de alegrar-me com tantas alegrias admiráveis? Alegra-te sempre no Senhor e também tu, caríssima, e não te envolvam névoas de amargura, senhora diletíssima em Cristo, gozo dos anjos e coroa das Irmãs, põe tua mente no espelho da eternidade, a tua alma no esplendor da glória e teu coração na figura da substância divina e transforma-te toda pela contemplação na imagem da própria divindade, a fim de sentires, tu mesma, o que sentem os amigos, degustando a doçura escondida que o próprio Deus reservou, desde o início, para os que Ele ama. E tendo preterido totalmente todos aqueles que, neste mundo falaz e perturbador, enganam seus cegos servidores, ama inteiramente só Aquele que se entregou todo por teu amor, cuja beleza o sol e a lua admiram e cuja recompensa não tem fim nem em valor nem em tamanho. Refiro-me ao Filho do Altíssimo que a Virgem deu à luz e permaneceu virgem mesmo depois do parto. Apega-te à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal grande Filho, que o próprio céu não pode compreender e, no entanto, ela o carregou no pequeno recinto de seu sagrado ventre e o gestou no seio de uma jovem mulher.

Quem não há de repudiar as insídias do inimigo do homem que, pelo fausto de uma glória falaz e momentânea, reduz a nada o que é maior do que o céu. Eis que, pela graça digníssima de Deus, dada às criaturas, consta que a alma do homem fiel é maior do que o céu, visto que os céus e todas as demais criaturas não podem compreender o Criador e somente a alma fiel lhe serve de mansão e morada, e isto só ocorre pela caridade de que os ímpios carecem: no testemunho da própria verdade, que diz: quem me ama, será amado por meu Pai e eu o amarei e viremos a ele e faremos dele nossa morada. Assim, portanto, como a Virgem gloriosa das virgens o fez materialmente, assim também tu, seguindo-lhe os passos e, sobretudo, os passos da humildade e pobreza, podes carregar sempre espiritualmente no teu corpo casto e virginal, sem nenhuma dúvida, contendo Aquele que te contém a ti e a tudo o mais, possuindo Aquele que, em comparação com os bens passageiros deste mundo, possuirás com mais valor. É nisso que se enganam alguns reis e rainhas do mundo, cuja soberba, embora possa chegar até o céu e tocar, com a cabeça, as nuvens, perder-se-á no fim, como um monte de esterco.

Sobre o que solicitaste para manifestar-me, a saber, quais seriam as festas que, como julgo, nosso glorioso pai, São Francisco, nos indicou ter aceito variar a comida, para celebrá-las de modo especial, achei ter de responder à tua caridade. Pois, sabe tua prudência que, exceto as fracas e enfermas, com as quais nos lembrou e mandou ter toda discrição possível, no tocante à alimentação, nenhuma de nós, sadia e forte, deveria comer senão comida quaresmal, tanto nos dias festivos quanto nos dias comuns, jejuando todo dia, exceto aos domingos e no dia de Natal do Senhor, quando devemos ter duas refeições. E também às quintas-feiras das têmporas costumeiras, segundo a vontade de cada uma, a saber, quem não quiser não está obrigada a jejuar. Todavia, nós, com saúde, jejuamos todo dia, exceto aos domingos e no Natal.

Entretanto, em toda Páscoa, como diz o escrito de São Francisco, e nas festividades de Santa Maria e dos Santos Apóstolos, também, não somos obrigadas a jejuar a não ser que tais festas caiam às sextas-feiras. E como foi dito antes, sempre que sadias e fortes, comemos comida quaresmal.

Todavia, porque nem nossa carne é carne de ferro, nem a resistência da pedra é a nossa: até somos frágeis e propensas a toda fraqueza do corpo, eu te peço, caríssima, e imploro no Senhor que te abstenhas, com sabedoria e discrição, de qualquer indiscreta e impossível austeridade na abstinência, que soube tu teres empreendido, a fim de, vivendo, confessares ao Senhor e que teu serviço ao Senhor seja racional e teu sacrifício esteja sempre temperado com grão de sal.

Saúde sempre no Senhor, assim como desejo ter para mim, e recomenda a mim e minhas irmãs em tuas santas orações.


4ª Carta a Inês de Praga

Para a ilustre rainha, sua alma-metade e cofre singular de amor precordial, esposa do Cordeiro, Rei eterno, senhora Inês de sua mãe caríssima e filha especial entre todas as outras, Clara, fâmula indigna de Cristo e serva inútil das servas, que moram no mosteiro de São Damião de Assis e, junto com as demais virgens santas, cantam um cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro e O seguem para onde Ele for, saúde! Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, se não te escrevi frequentemente, como a tua e a minha alma desejam igualmente e aspiram um pouco, não te admires nem penses que o incêndio de caridade para contigo arda menos suavemente nas entranhas de tua mãe. É que mo impediram a falta de mensageiros bem como os perigos evidentes das estradas. Agora, porém, escrevendo para tua caridade, eu me alegro e exulto contigo na alegria do espírito, esposa de Cristo, visto que, como aquela outra Virgem santíssima, Santa Inês, estás desposada admiravelmente com o Cordeiro Imaculado, que tira os pecados do mundo, depois de teres abandonado todas as vaidades do século.

Feliz, com certeza, aquele a quem é dado possuir este sacro convívio, a fim de aderir-lhe com todas as forças do coração, cuja beleza admiram sem cessar todos os exércitos bem-aventurados do céu, cujo afeto afeta, cuja contemplação reanima, cuja benignidade preenche, cuja suavidade acumula, cuja memória brilha suave, cujo odor ressuscita os mortos, cuja visão gloriosa santifica todos os cidadãos de Jerusalém do Alto, que, sendo esplendor da glória eterna, é candor da luz eterna e espelho sem mancha.

Olha neste Espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelha nele, sem cessar, tua face, para, assim, te adornares toda, tanto interna quanto externamente, vestida e cercada de belezas, vestida, também, com as flores e o manto de todas as virtudes, como convém, filha e esposa caríssima do Rei Supremo. Neste Espelho, porém, refulge a sagrada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, tal como poderás contemplar por todo o Espelho com a graça de Deus.

Escuta, digo, a pobreza, princípio deste Espelho, colocado no presépio e envolto em panos. Ó humildade admirável, ó pobreza estupenda! O Rei dos anjos, Senhor do Céu e da Terra, deitado num presépio! No meio do Espelho considera a humildade, ao menos a bem-aventurada pobreza, os inúmeros trabalhos e sofrimentos, que suportou pela redenção do gênero humano. No fim, porém, no mesmo Espelho, contempla a caridade inefável, com que quis sofrer na árvore da cruz e nela morrer todo gênero torpe de morte. Daí, o próprio Espelho, colocado no lenho da cruz, admoestava os transeuntes para considerar o que viam, dizendo: Ó vós todos, que passais pela estrada, escutai e vede se há uma dor, como a minha; respondamo-lhe, disse, clamando e lamentando, numa voz, num só espírito: pela memória lembrar-me-ei e minha alma abate-se dentro de mim. Assim, pois, ó Rainha do Rei Celeste, inflame-se, sempre com mais força no ardor da caridade.

Contemplando-lhe, ademais, as delícias indizíveis, as riquezas e honras perpétuas e suspirando por desejo e amor demasiado, no coração, proclames:

Leva-me contigo,
corremos atrás do odor de teus perfumes,
Esposo celeste!
Correrei e não desfalecerei
até me introduzires na adega,
até que tua esquerda esteja
debaixo de minha cabeça
e a direita me abrace com felicidade
e me beijes com o ditoso beijo de tua boca.

Chegada a tal contemplação, recorda-te de tua pobre mãe, ciente de que inscrevi tua feliz memória, de modo indelével, nas tábuas de meu coração, tendo-te mais cara do que as outras todas: E que mais? Cale-se em teu amor a língua da carne; diga e fale a língua do espírito. Pois, ó filha bendita, a língua da carne não poderá nunca exprimir mais plenamente o amor que tenho por ti, uma vez que diz pela metade o que escrevi. Peço que recebas com benignidade e devoção, escutando-lhe ao menos o amor materno, do qual sou tomada todo dia com o ardor da caridade para contigo e tuas filhas. A elas me recomenda muito em Cristo, tanto a mim mesma quanto minhas filhas. E a ti se recomendam no Senhor minhas filhas, sobretudo Inês, a virgem prudentíssima, irmã nossa.

Adeus a ti, caríssima filha e as tuas filhas, até o trono de glória do grande Deus. E rezem por nós. Com a presente, recomendo, quanto posso, à tua caridade, os portadores desta, os caríssimos confrades nossos, Frei Amado, querido de Deus e dos homens, e Frei Bonagura. Amém.


Carta a Ermentrudes

Para Ermentrudes, irmã santíssima, de Clara de Assis, serva humilde de Jesus Cristo, saúde e paz. Soube que tu, caríssima Irmã, te afastaste, felizmente, da lama do mundo com a ajuda da graça de Deus. Por isso alegro-me e me congratulo contigo. E também me alegro que estejas caminhando com desembaraço pelos caminhos da virtude, junto com tuas filhas.

Sê, caríssima, fiel Àquele a quem te prometeste até a morte, pois, por Ele serás coroada com a láurea da vida. Breve é nosso esforço aqui, mas a recompensa é eterna. Não te confunda o alarido do mundo, que foge como uma sombra. Não te enlouqueçam os espectros inanes do mundo falaz; fecha os ouvidos aos silvos do inferno, e resiste forte a suas tentativas. Suporta de bom grado os males adversos, e não te exaltem os bens favoráveis; pois estes estimulam a fé e aqueles a expelem. Cumpre fielmente o que prometeste a Deus e Ele há de retribuir-te. Caríssima, ergue os olhos para o céu, que nos convida; e carrega a cruz e segue a Cristo, que nos precedeu. Pois, após várias e muitas tribulações, entraremos por Ele na sua glória. Ama de todo coração a Deus e a Jesus, seu Filho, crucificado por nós pecadores, e a sua memória nunca se afaste de tua mente. Faz com que medites sempre os mistérios da cruz e as angústias da Mãe ao pé da cruz. Reza e vigia continuamente e completa, com solicitude, a obra, que bem começaste, realizando, na santa Pobreza e com humildade sincera, o ministério que assumiste. Não te apavores, filha, Deus, fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras, há de derramar sobre ti e sobre tuas filhas a sua bênção. Ele será vossa ajuda e o melhor dos consoladores. É nosso Redentor e nossa recompensa eterna.

Roguemos a Deus reciprocamente por nós, pois assim, carregando o ônus da caridade, uma pela outra, com leveza, cumpriremos a lei de Cristo! Amém!


Bênção de Santa Clara

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
O Senhor vos abençoe e vos guarde;
mostre-vos sua face e tenha misericórdia de vós;
volva para vós seu rosto e vos dê a paz,
a vós, minhas irmãs e filhas, e a todas as outras que vierem e permanecerem em nossa fraternidade e todas as demais, tanto presentes quanto futuras, que perseverarem em todos os outros mosteiros das Senhoras Pobres.

Eu, Clara, serva de Cristo, plantinha do nosso beatíssimo pai São Francisco, irmã e mãe vossa e das demais irmãs pobres, embora indigna, rogo a nosso Senhor Jesus Cristo, por sua misericórdia, e intercessão de sua santíssima Mãe Santa Maria e do bem aventurado Miguel Arcanjo e de todos os santos Anjos de Deus e do nosso bem aventurado pai Francisco e de todos os Santos e Santas, que o próprio Pai celeste vos dê e vos confirme esta sua santíssima bênção, no Céu e na Terra: na terra, multiplicando-vos em graça e em suas virtudes, entre seus servos e servas, em sua Igreja militante; e no céu, exaltando-vos e glorificando na Igreja triunfante, entre seus Santos e Santas.

Eu vos abençoo em minha vida e depois de minha morte, assim como posso e mais do que posso, com todas as bênçãos, com as quais o Pai das misericórdias abençoou e abençoará os filhos e as filhas no céu e na terra; e com as quais um pai e uma mãe espirituais abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais. Amém. Amai sempre as vossas almas e as de todas as vossas irmãs; e, sede sempre solícitas em observar o que prometestes ao Senhor. O Senhor esteja sempre com todas vós, e oxalá vós, também, estejais sempre com Ele. Amém.