SÃO FRANCISCO: ESPLENDOR DA MENORIDADE EVANGÉLICA

São Francisco de Assis é um santo universalmente simpático, gozando de apreço, não só entre outras denominações cristãs, mas inclusive entre religiões fora do cristianismo e até mesmo entre descrentes. Certamente, a razão disso está no fato de ele ter vivido em plenitude o evangelho anunciado por Jesus Cristo, que atinge o núcleo do ser humano, lá onde todos comungam a plena igualdade que antecede toda diferença. Dessa forma, tornou-se um autêntico intérprete do Evangelho para as pessoas de todos os tempos, etnias e culturas, dialogando, portanto, de coração aberto, com as pessoas e as instituições, propondo-lhes uma verdadeira renovação pessoal e institucional.

Em Francisco de Assis, transparece claramente que a fé cristã, quando vivida plenamente com espírito e jovialidade, é o tesouro escondido no campo e vale a pena empregar tudo para adquiri-lo (cf. Mt 13,44).  Assim, conhecer São Francisco e ter contato com sua espiritualidade é tornar-se titular de uma grande herança que, por sua vez, nos traz a enorme responsabilidade de vivermos com mais ousadia e incisividade os apelos do evangelho.

Quando nos deparamos com a realidade atual, constatamos situações deploráveis de injustiças sociais inaceitáveis, de inversão de valores e de consequente deterioração das relações de convivência humana. Em nível mundial, o que esperar, quando prevalece – como diz o Papa Francisco – a cultura da “globalização da indiferença” que leva os líderes das nações – especialmente das mais poderosas –, a tratarem as grandes questões da humanidade com medidas injustas e desumanas, com total descaso pela vida dos mais vulneráveis? Quando proliferam conflitos que dizimam tantas vidas inocentes? Quando se promove uma economia deletéria ao ser humano e agressiva à natureza, sem noção de que somos uma única família humana, habitando uma casa comum? 

Em nível nacional, o que esperar de um país dividido e polarizado, carente de lideranças confiáveis, com instituições públicas frágeis e subservientes a conluios predatórios, onde a informação é tergiversada na barafunda das fake news, induzindo as pessoas a fazerem opções que negam os valores em que acreditam e inviabilizam seus legítimos interesses? O que dizer da escalada da violência, especialmente nos grandes centros urbanos que frequentemente aniquilam vidas inocentes de adultos e crianças? Diante de tudo isso, nos perguntamos: o que fazer? Como ser portadores de esperança em situações tão dramáticas?

Observando um pouco o tempo em que São Francisco e os seus companheiros viveram, constataremos que sua época não era menos complexa e desafiadora. Ao contrário, era um período de intensas mudanças e eivado de conflitos. Francisco mesmo pegou em armas e foi à guerra como combatente, antes de sua conversão. Contudo, mesmo em meio aos desafios, encontrou no evangelho a possibilidade de oferecer uma alternativa válida para todos. Como se sabe, a intenção principal de Francisco era viver o que todo batizado é chamado a realizar: seguir Jesus Cristo, viver o espírito do Evangelho. As primeiras fraternidades franciscanas eram autenticamente inseridas no meio dos pobres, participando da vida deles, da religiosidade deles, falando aos seus corações. 

Portanto, para respondermos aos desafios atuais, poderíamos certamente nos valer da experiência de Francisco. Tomás de Celano, seu primeiro biógrafo, dizia que o ideal de Francisco era viver no nível em que todos se encontram e se irmanam (cf. 2Cel 148). Assim, nele floresce de maneira esplêndida o fermento do evangelho com tudo o que contém de questionador e desafiador. Ele encarna para a nossa cultura e para a Igreja – e especialmente para a nossa Ordem –, no Brasil, na America Latina e em todo o mundo, uma das mais sublimes fulgurações do Reino anunciado e revelado por Jesus Cristo. Por isso, ele é mais que um ideal. É uma referência obrigatória no seguimento de Jesus Cristo. É um modo de ser que permite o surgimento daquilo que o ser humano tem de melhor dentro de si.

São Francisco constitui, certamente, uma provocação para todos os cristãos, porque, confrontando-nos com ele, logo nos damos conta do quanto estamos ainda agarrados ao nosso “homem velho”. Porém não é uma provocação que nos deixa amargurados, mas nos impulsiona a sermos mais evangélicos, mais sensíveis à humildade de Deus, à menoridade que Francisco descobriu como a verdadeira essência divina, revelada plenamente em Jesus Cristo: “...quem quiser ser grande entre vós, seja o vosso servidor... Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir...” (Mc 10,44-45). Francisco percebeu que a “grandeza” de Deus Pai consiste na sua menoridade e, justamente, a identificação com a menoridade de Deus o tornou o Alter Christus (outro Cristo), tão perto do coração das pessoas e protagonista de uma confraternização universal. 
Assim, a experiência de Francisco de Assis demonstra que o evangelho é fonte de transformação e renovação capaz de recriar o homo matinalis do jardim do Eden, recém plasmado pelas mãos do Criador, instaurando um novo céu e uma nova terra; ou seja, o encontro com o evangelho possibilita um novo modo de viver e de se relacionar consigo mesmo, com Deus, com as pessoas, com as criaturas, com a vida e com a morte, “transformando a amargura em doçura da alma e do corpo”, como afirma o próprio São Francisco (Test.3).
Boa celebração a todos! 


Frei Aloisio de Oliveira
Ministro Provincial


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