O Suicídio começa por dentro

O setembro amarelo é um alerta para o suicídio e por isso aqui vale umas informações.
O filósofo Nietzsche diz que “a ideia de suicídio é uma grande consolação, pois ajuda a suportar muitas noites más” e por aí já podemos entender que além do suicídio começar por dentro é um fenômeno enigmático, complexo, dificilmente racionalizado, compreendido ou explicado.
Um infarto agudo do miocárdio é uma emergência clínica. O suicídio é também uma emergência (psiquiátrica) já que se apresenta com um risco significativo de morte ou injúria grave, necessitando de uma intervenção imediata.
Podemos ver o suicídio em três vertentes: comportamento suicida, tentativa de suicídio e suicídio consumado.
O comportamento suicida inclui um conjunto de atitudes como a ideação suicida, o planejamento, a tentativa e a consumação. A tentativa é aquele comportamento que provoca uma autolesão que não chega a ser fatal, mas que, porém, deixa claro o desejo de morrer. O suicídio é finalmente a consumação desse desejo de morrer, autoprovocado.
Habitualmente crê-se que o suicídio é um ato em plena liberdade de escolha, o que nem sempre é verdade já que no momento habitualmente apresenta uma distorção da percepção.
O suicídio é sempre multifatorial, a decisão de morte não passa por um único ponto, mas representa um somatório de coisas. É o resultado de um balanço entre fatores positivos e negativos em estar vivo, quando o indivíduo reconhece que esse balanço é mais negativo e que é incapaz de carregar o sofrimento, uma convicção de que viver não faz sentido, um período de luta interna composto de angústia profunda, a qual geralmente não é compartilhada, nem com seus próximos.
O suicídio não é por si só uma doença mental, mas necessariamente uma manifestação de vários transtornos mentais; por exemplo, 60% dos pacientes com comportamento suicida são depressivos.
O número de tentativas tem aumentado ultimamente em todo o mundo, com uma alta incidência entre 15 e 29 anos e em maiores de 70 anos, sendo a tentativa maior em mulheres e a consumação maior em homens.
De cada dez tentativas oito apresenta sinais da intenção. Após uma tentativa 10 a 25% tentarão novamente em um ano e o risco vai aumentando entre as tentativas, tornando-se mais perigosas e também havendo uma diminuição do intervalo entre essas.


São fatores de risco:


Depressão, uso de drogas psicoativas, ansiedade grave, psicose, transtorno bipolar, idade avançada, juventude e nessas duas faixas etárias o agravante é a falta ou perda de apoio, processo de luto não bem resolvido, falta de tratamento sustentado de doenças mentais. O mundo moderno, da geração internet, impaciente e imediatista, sem desenvolver a capacidade de suportar frustrações vai se tornando um grupo de risco, especialmente pela falta de vivências concretas e reais de familiares e amigos (relações humanas).



Alguns equívocos:


- Achar que quem vai se matar não avisa, pois de cada dez pessoas que se suicida quase sete comunicam sua intenção, pensamentos ou planos antes do ato;
- Achar que o suicídio é um ato impulsivo, pois muitas vezes é planejado e refletido;
- Achar que o suicida é fraco e egoísta, quando na verdade pode ser portador de um transtorno mental não diagnosticado ou não tratado ou portador de um sofrimento existencial intenso não aliviado;
- Achar que uma pessoa inteligente não se suicida, já que o para o suicídio não há limite cultura, étnico ou socioeconômico;
- Achar que não se deve falar abertamente sobre o comportamento suicida com o indivíduo, pois isso poderá leva-lo a cometer o ato, quando na verdade pode exercer efeito exatamente ao contrário e ajudá-la a evitar;
- Achar que nada pode ser feito pelo suicida, quando na verdade identificar e modificar os fatores de risco pode reduzir bastante as tentativas;
- Achar que o que quer o suicida é chamar a atenção dos outros, quando na verdade um pedido desesperado de ajuda não é o equivalente a querer obter adequada atenção de terceiros.
Não há como detectar claramente quem tentará o suicídio, mas conhecer esses dados acima pode nos ajudar a estar mais atentos aos nossos familiares e amigos que possam estar no grupo de risco.
Cada caso em particular deverá ter sua avaliação e seu acompanhamento já que há um entrelaçado de vários fatores contribuintes, o que pode ser agravado pelo estilo de vida moderno, isolado, sem relações de família, de amizade, atividades prazerosas de compartilhamento de coisas da vida, cibernético e fechado e não raro repleto de disputas, imediatismos, comparações infundadas e ao crescente incentivo pela violência em todas suas formas.
A ajuda para os que nos são próximos é conversa, acompanhamento, proteção e ajuda profissional.
 
Dr. João Batista Alves de Oliveira 
Médico Paliativista 

 
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