Mensagem de Páscoa 2020

Em ti está a fonte da vida e à tua luz vemos a luz (Sl 36,10)

Caros irmãos e irmãs, o Senhor lhes dê a paz!

Estamos vivendo tempos muito diferentes. Em poucos meses, aconteceu o inimaginável: uma “força estranha”, invisível a olhos nus, subjugou até as nações mais poderosas da terra. Nenhum dinheiro do mundo pode exorcizar o medo que se apoderou do coração de todos. O centro financeiro global, os adoradores de “Mammona”, finalmente sentem, na carne, a vacuidade da sua idolatria: “Ninguém se livra de sua morte por dinheiro, nem a Deus pode pagar o seu resgate. A isenção da própria morte não tem preço; não há riqueza que a possa adquirir, nem dar ao homem uma vida sem limites e garantir-lhe uma existência imortal” (Sl 49,8-10). 

O cenário de grandes centros urbanos mundiais, apresentado nos noticiários, com hospitais em colapso incapazes de atender a tantos infectados; famílias que não podem velar seus mortos lacrados em ataúdes amontoados, a esmo, em lugares improvisados ou envoltos em sacos plásticos, friamente sepultados ou incinerados como descarte de resíduo infectante; cadáveres abandonados em sarjetas em regiões carentes do planeta, onde o sistema funerário esgotou-se precocemente; ruas, praças e ambientes públicos completamente desertos, em grandes metrópoles do mundo; todas essas imagens adensam a atmosfera lúgubre que ensombrece a face da terra, fazendo evocar uma desolação de proporções bíblicas: “...suas ruas deixei desertas, sem nenhum transeunte, as cidades devastadas, sem ninguém, sem nenhum morador” (Sf 3,6). 

Essa pandemia escancara a vulnerabilidade que nos iguala a todos: pobre ou rico, branco ou negro, jovem ou idoso, autóctone ou imigrante, letrado ou analfabeto, habitante de palácios ou mendigo de rua... estamos todos experimentando a mesma insegurança. Ninguém é dono da vida, ninguém é dono de si mesmo, ninguém é dono de nada... Estamos todos experimentando, na carne, nossa fragilidade ingênita, a precariedade estrutural da nossa existência, cantada pelo salmista: “O homem é como um sopro; os seus dias como sombra que passa” (Sl 144,4). 

Nesse contexto, certamente nos preocupa, de imediato, o risco a que estamos expostos nós, nossos familiares, amigos e a porção do Povo de Deus imediatamente sob a nossa cura pastoral, sem esquecer, obviamente, as demais vítimas da pandemia pelo mundo afora, especialmente nas regiões mais pobres, potencialmente mais vulneráveis. Uma das coisas que esse vírus nos ensina, impondo-nos dolorosa lição prática, é que ninguém é ilha; somos todos uma grande família humana, habitando uma casa comum e que não podemos mais viver como se o destino da humanidade não nos tocasse pessoalmente. Com tudo o que está acontecendo no mundo, hoje, temos a oportunidade de entender, de uma vez por todas, que não pode haver lugar para o orgulho, a arrogância, a pretensão de estarmos acima dos outros, e que nenhuma atitude é apropriada senão a humildade, a profunda experiência de nossa insuficiência e vulnerabilidade.
Esta Semana Santa foi muito diferente. Com a suspensão das atividades, tivemos de vivê-la no silêncio, na contemplação, também na angústia, no sofrimento, na incerteza..., participando, de algum modo, da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, quando, na solidão, sujeito ao curso dos acontecimentos, ficou aflito e suou sangue (Lc 22,44). Estamos vivendo um momento “kairótico” impar para assimilarmos a fragilidade da nossa condição criatural, “completando, desse modo, em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo”, (Col 1,24). Esse vírus que não agride a outros seres, afora a espécie humana, certamente é o espinho na carne que nos foi dado para nos despojar de nosso orgulho e nos fazer experimentar em cheio a nossa fraqueza, para descobrirmos, finalmente, que é na fraqueza que a força se aperfeiçoa. Quando fracos, então é que somos fortes porque habita em nós a força de Cristo. Basta-nos esta Graça! (2Cor 12,7-10).

Certamente estamos num “momento de graça” para reorientarmos nossa vida, redimensionarmos nossos valores, empregarmos melhor o nosso tempo, as nossas energias, as nossas potencialidades e também nossas fraquezas e limitações para nos dedicarmos às coisas pelas quais vale realmente a pena viver e morrer. É hora de redescobrirmos a “caritas Christi”, aprendendo a ser mais amáveis, mais solidários, mais humanos... em relação às pessoas e às criaturas; é momento de morrermos ao nosso “homem velho” para ressurgir em nós a “nova criatura”, capaz de “um novo céu e uma nova terra”, onde uma nova humanidade é possível porque as coisas velhas passaram (Ap 21,1-4). 
Feliz caminho de ressurreição para todos nós!

Frei Aloisio de Oliveira
Ministro Provincial

 
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