Cuidados Paliativos - Por que falar de espiritualidade na doença grave ou na proximidade da morte?

Anualmente, no segundo sábado de outubro, que esse ano é 12, comemora-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, cuja finalidade é propagar essa área do cuidado e fazer conhecer a excelência do atendimento ao que possui doença grave e incurável ou que se aproxima da morte.
Aqui vamos inicialmente conceituar os Cuidados Paliativos, assim como descrever seus princípios e, posteriormente, focar na importância da espiritualidade para a abordagem da dor total (física, psíquica, social e espiritual).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) Cuidado Paliativo “é uma abordagem que aprimora a qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados a doenças ameaçadoras da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual”. (1)
Seus princípios são: primeiramente controlar a dor e os sintomas correlatos que determinam sofrimentos; considerar a morte como parte da vida e não como um fracasso da medicina; promover a qualidade de vida; não abreviar a vida e nem prolongar o processo de morte; desenvolver um trabalho interdisciplinar, considerando as limitações de cada profissão; resgatar a identidade pessoal através da abordagem da dor total e da comunicação aberta e empática com paciente e família; oferecer apoio à família desde o diagnóstico e até a fase de luto pós morte; introduzir precocemente os Cuidados Paliativos, se possível já ao diagnóstico.
Mas se o doente é grave ou está morrendo, por que pensar em espiritualidade diante de tanta gravidade? A resposta é, em parte, simples: “porque somente a fé responde ao que é absurdo à ciência”. (2) e ainda porque “esquecer as necessidades espirituais é esquecer a razão de ser do porque se vive, afinal esquecer o que é verdadeiramente humano”. (3)
A doença, o sofrimento, a proximidade da morte podem suscitar não só a esperança, mas também o desespero, a sensação de abandono, de aniquilação, da ausência de Deus, surgindo então questionamentos como: Quem é Deus? Que amor é esse que permite tantos sofrimentos? O que é a bondade de Deus? Por que Deus se esqueceu de mim?
A intensidade do sofrimento desse outro frágil é, no entanto, medida em termos do próprio doente, à luz dos seus valores, de suas vivências, das suas crenças e recursos (3) , momento em que precisamos nos colocar no seu lugar (lembrando que não há misericórdia sem doação), um abraçar a vida ferida.
Prestar apoio espiritual não é impor nossas crenças, mostrar o nosso Sagrado, mas reconhecer o outro vulnerável como um santuário onde somente podemos entrar quando as portas forem se abrindo. (4)
Por isso, é fundamental descobrir os valores e as necessidades de cada doente individualmente, porque o “objetivo é entender as crenças do paciente e o papel que elas desempenham na saúde e na doença, sem julgar ou tentar modificar essas crenças ou a falta de crença”. (5)
Estar diante de alguém que está sereno, tranquilo com sua condição, em paz consigo e com o Sagrado é cômodo e até fácil; difícil é estar diante daquele que sofre, que está em desespero pelo final de sua vida, que desacredita do Sagrado, e esse é o especial momento de ‘ser para o outro’, em verdadeira compaixão com os ingredientes de compromisso, responsabilidade, presença e envolvimento, nessa necessidade vital de amor que se acentua na aproximação da morte, como coroação da existência. (3)
Sempre que falamos de espiritualidade quase que teimamos em cometer um grave erro – considerar que todos devem ter uma crença e que esta é a tábua de salvação diante da adversidade – e com isso esquecemos daqueles que não possuem uma crença. Para esses, a solução não é deixá-los na solidão, mas descobrir que nossa missão ali é dispensar-lhe solidariedade e compaixão a fim de amenizar os medos associados com a dor, o sofrimento e o sentimento de sentir-se relevado ao ‘esquecimento’ após a morte. (6)
Para abordarmos a espiritualidade precisamos de compaixão que significa “ao ver uma pessoa doente coloca-la no centro das atenções, como nosso semelhante, cujas experiências não podemos compreender totalmente..., mas que nos tocam por partilharmos a mesma humanidade”. (7)
Fornecer cuidado espiritual é estarmos prontos para nos defrontar com dúvidas e aceitarmos as divergências, revoltas e incredulidades. Só cada um, na busca de si, pode encontrar a espiritualidade.
Jó, diante de suas provações questionava: “por que as flechas do Todo Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito? Por que os terrores de Deus se armam contra mim? Está em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria? Por que Deus faz isso comigo?” (8)
Diante das inquietudes, seus amigos empenharam-se tanto em falar de Deus que se esqueceram de Jó, a não ser para observar que ele deveria ter feito alguma coisa muito ruim para merecer aquele destino das mãos de um Deus justo (6) comportamento que nos distância do ser humano em sofrimento e nos faz lembrar que “as mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam” (9) e que “o único modo de enfrentar a morte será a associação a um outro, sermos sustentados pelo outro.. somente um outro pode ser a medicina para esse eu, sendo esse outro consciente da sua compaixão/responsabilidade” (10) 
Madre Teresa de Calcutá nos diz “amar até que doa, e se doer, continuar amando”, pois só assim poderemos ajudar o outro a dar o seu passo a mais. A espiritualidade nos ajuda a compreender o sentido da vida. Crer em Deus é afirmar que a vida tem sentido. (11) A vida, assim como a espiritualidade terá sentido não quando impusermos o nosso Deus, a nossa crença, mas quando ajudarmos àquele vulnerável pelo sofrimento ao encontro, não do Deus das religiões, das nossas convicções, mas o Deus pessoal e interior.


Dr. João Batista Alves de Oliveira
Médico Paliativista
paliativo2015@gmail.com

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(1) OMS (2) Martins (3) Barbosa (4) Mendes (5) Esperandio (7) Viana;Silva (8) Bíblia Sagrada (9) Madre Teresa de Calcutá (10) Rodrigues (11) Wittengestein
Texto escrito em comemoração ao Dia Mundial dos Cuidados Paliativos 12/10/19 que tem como tema Meu cuidado. Meu direito

 
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